O PSDB de Mato Grosso do Sul recalculou sua estratégia eleitoral e projeta a conquista de uma das oito cadeiras do Estado na Câmara dos Deputados. O otimismo da legenda baseia-se na nova modulação jurídica do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a distribuição das vagas remanescentes (sobras eleitorais), o que neutralizou o impacto do recente esvaziamento de quadros do partido e abriu uma frente de resistência contra o assédio de siglas aliadas.
Segundo o deputado estadual Pedro Caravina, presidente do diretório estadual tucano, o novo entendimento da Corte mitigou a barreira do desempenho mínimo na fase inicial de partilha. Com isso, a nominata do PSDB ganha viabilidade matemática direta frente a partidos de peso da base governista, como o Progressistas (PP), o Partido Liberal (PL) e o Republicanos.
O cenário técnico transformou os bastidores em uma arena de forte disputa interna. Caravina sinalizou que as pressões externas e investidas de legendas concorrentes sobre os pré-candidatos tucanos — apelidadas nos corredores de “fogo amigo” — são o maior indicativo de que o partido mantém densidade eleitoral e competitividade, contrariando projeções que previam o colapso da sigla após a desfiliação de lideranças históricas.
Como a decisão do STF beneficia o PSDB
Para compreender a virada de mesa do PSDB, é preciso analisar as engrenagens do sistema proporcional de votos. A mudança imposta pelo STF atua diretamente nos critérios de exclusão das sobras eleitorais.
O passo a passo da nova regra de sobras
A mudança determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) alterou profundamente o funcionamento do sistema proporcional. Para entender como o PSDB foi beneficiado, veja o comparativo estruturado entre o modelo anterior e o atual:
1. A Regra Anterior (Artigo 109)
Até a modulação do STF, o preenchimento das vagas remanescentes (as chamadas “sobras”) era restrito pelo severo critério conhecido como “Cláusula 80/20”:
- Exigência Partidária (Os 80%): A legenda precisava, obrigatoriamente, alcançar no mínimo 80% do Quociente Eleitoral (QE) do estado para ter o direito de disputar qualquer sobra de vaga.
- Exigência Nominal (Os 20%): O candidato individual, para herdar a vaga, precisava obter votos nominais equivalentes a pelo menos 20% do QE.
- O Bloqueio: Se um partido de médio ou pequeno porte fizesse uma votação expressiva, mas ficasse abaixo da linha dos 80% do QE, ele era sumariamente excluído da apuração, e suas vagas sobravam para os partidos gigantes.
Na prática, com o Quociente Eleitoral (QE) estimado em 180 mil votos para o pleito federal em Mato Grosso do Sul, a regra antiga impunha uma cláusula de barreira rígida: o partido que não somasse pelo menos 144 mil votos (80% do QE) era sumariamente desclassificado da disputa das sobras.
Com a derrubada dessa restrição pelo STF, o PSDB concorre em igualdade de condições na distribuição residual.
“O STF corrigiu uma distorção que feria o princípio da democracia representativa. Não fazia sentido concentrar vagas adicionais em partidos superdimensionados se legendas tradicionais possuem candidatos com votações expressivas aptos a exercer o mandato”, explicou Caravina.
Projeções de bancada
A nova modelagem matemática mexe com os cálculos de todo o arco de alianças do Estado. A distribuição projetada pelas lideranças partidárias aponta para um cenário pulverizado:
- PL e União Brasil: Almejam de dois a três cadeiras cada;
- Republicanos: Busca consolidar uma vaga;
- PT: Projeta a eleição de dois deputados.
- PSDB: Busca a eleição na sobra
A entrada do PSDB no cálculo das sobras pressiona o teto de gastos e a meta de cadeiras dos concorrentes. “As vagas no Legislativo são um recurso escasso. Há convergência programática na base, mas a disputa proporcional é de soma zero”, pontuou o dirigente.
A estratégia tucana para a Câmara Federal apoia-se em nomes de recall político e capilaridade setorial:
- Professor Juari: Vereador atuante em Campo Grande (base eleitoral na capital).
- Bia Cavassa: Ex-deputada federal suplente (representatividade da região do Pantanal/Corumbá);
- Viviane Luiza: Ex-secretária estadual de Cidadania (fortalecimento da pauta social);

Ajustes na nominata
A chapa passou por reconfigurações após duas baixas estratégicas: Paula Campo (primeira-dama de Ponta Porã) recuou para coordenar a campanha no macroanel da fronteira, e João Carlos Krug (ex-prefeito de Chapadão do Sul) retirou a pré-candidatura por razões particulares. Caravina classificou as movimentações e as tentativas de desestabilização externa como ruídos típicos de pré-campanha.
Metas para a ALEMS
No âmbito estadual, onde o quociente eleitoral é historicamente menor e mais pulverizado, o PSDB estruturou uma nominata robusta com 25 candidatos à Assembleia Legislativa (Alems). O planejamento estratégico do partido estabelece um piso de quatro cadeiras garantidas, com viabilidade técnica para a quinta vaga a depender do volume de votos válidos da legenda.

O partido aposta no peso institucional de parlamentares testados nas urnas e lideranças municipais:
- Bancada Atual (Reeleição): Pedro Caravina, Lia Nogueira e Paulo Duarte;
- Lideranças de Expressão Regional: Ângelo Guerreiro e Eduardo Rocha;
- Articulação na Capital: Vereadores Flávio Cabo Almi e Silvio Pitú;
- Bases Interioranas: Janete Córdoba (Amambai), Andréa Fim (Nova Alvorada do Sul) e Flávio Dias (vice-prefeito de Coxim).
Coordenação política da base
O redesenho das forças políticas em Mato Grosso do Sul apresenta uma peculiaridade institucional: a governabilidade e a coordenação do bloco aliado estão sob a liderança de dois ex-tucanos históricos que hoje comandam siglas concorrentes — o ex-governador Reinaldo Azambuja (PL) e o atual governador Eduardo Riedel (PP).
Apesar do tensionamento gerado pela disputa pelas sobras eleitorais, Caravina minimizou o risco de ruptura na sustentação política do Poder Executivo. Segundo o presidente do PSDB, as divergências e o tateamento de espaço nas chapas proporcionais são monitorados pelo comando do governo, sem potencial para fraturar o alinhamento macro do bloco situacionista.
Dados
O Instituto Ranking Brasil Inteligência realizou, no período de 1º a 5 de junho deste ano, junto a 2.000 moradores com 16 anos ou mais de idade, em 30 municípios de Mato Grosso do Sul, com intervalo de confiança de 95% e margem de erro de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos.
A pesquisa está registrada sob os números MS-06874/2026 e BR-03768/2026. Metodologia quantitativa, com a realização de entrevistas pessoais e pelo sistema CAT, utilizando questionário estruturado junto a uma amostra representativa do eleitorado do Estado de Mato Grosso do Sul.
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